Quem trabalha com a moto olha para o que entrou no fim do dia. Mas o que entrou não é o que sobrou. Uma parte do dinheiro já é da próxima troca de óleo, do próximo pneu, da próxima relação. Se você não separa essa parte, ela some e aparece de uma vez na forma de uma conta grande.
Resposta curta
Para saber quanto você ganha de verdade trabalhando com a moto, desconte do faturamento o custo por km da moto: combustível, manutenção (que chega mais cedo com o uso intenso), pneus, relação, freios, depreciação, seguro, equipamento e, se você é MEI, a contribuição mensal. Some tudo, divida pelos km rodados e multiplique pelos km de cada dia. O que sobra é o seu ganho real.
Por que a moto de trabalho custa diferente
Uma moto de trabalho roda muito mais que uma moto de passeio, e roda do jeito mais pesado: anda e para o tempo todo, carrega baú, enfrenta chuva e buraco. O resultado:
- Os prazos de manutenção chegam mais cedo. Óleo, filtros, pastilhas e relação vencem por quilometragem, e você acumula quilômetros rápido.
- Pneu e relação viram gasto frequente, não "de vez em quando".
- A moto perde valor mais rápido: quilometragem alta derruba o preço na revenda.
Muitos manuais trazem um plano de manutenção para uso severo (trânsito pesado, poeira, chuva, carga), com intervalos menores. O que vale é o manual da sua moto. Se ele tem essa tabela, siga a de uso severo.
Os custos, um por um
Combustível
O maior gasto diário. Calcule o seu consumo real em km/l e multiplique pelos km que você roda. Veja Como calcular o consumo da moto.
Manutenção acelerada
Óleo e filtro, pastilhas, cabos, lâmpadas, revisões. Some o que gastou nos últimos meses e divida pelos km rodados no período.
Pneus e relação
Divida o preço do jogo pelos km que ele costuma durar na sua rotina. Isso dá quanto cada km "gasta" de pneu e de relação.
Depreciação
É o quanto a moto perde de valor com o tempo e a quilometragem. Uma forma simples de estimar: compare o valor da moto hoje na Tabela FIPE com o valor esperado daqui a um ano e divida pela quilometragem que você vai rodar nesse período. É dinheiro que você não vê sair, mas sai.
Seguro
Para quem depende da moto, perder a moto é perder a renda. Se fizer seguro, declare o uso profissional: esconder isso pode levar à perda da indenização. Veja Seguro de moto vale a pena?.
Equipamento
Capacete, luvas, jaqueta, calça, calçado, capa de chuva, baú e suporte de celular. Tudo se desgasta mais rápido no uso diário. Divida o preço de cada item pelos meses que ele dura.
Custos fixos
IPVA, licenciamento, plano de celular e, se você é MEI, a contribuição mensal (DAS).
MEI: quando faz sentido
Entregador pode se formalizar como MEI, desde que a atividade esteja na lista de ocupações permitidas e o faturamento fique dentro do limite anual. A contribuição mensal inclui o INSS, que dá acesso a benefícios da Previdência, conforme as regras dela. O valor do DAS muda todo ano, junto com o salário mínimo. Confira a ocupação, o limite e o valor atual no Portal do Empreendedor (gov.br/mei). Ser MEI não é obrigatório para trabalhar com aplicativo.
Se você trabalha como motofretista, também existem regras próprias para a atividade e para a moto, que passaram por mudanças recentes. Confira as exigências atuais no Detran do seu estado e na prefeitura da sua cidade.
Monte a sua conta
Custo por km de trabalho
- Anote os km rodados num período (um mês, por exemplo).
- Some o combustível do período.
- Some a manutenção, pneus e relação do período (ou a parte proporcional).
- Some a parte do mês de seguro, IPVA, licenciamento, equipamento e DAS.
- Some a depreciação estimada do mês.
- Divida o total pelos km rodados. Esse é o seu custo por km.
Exemplo com números redondos (só exemplo)
Uma moto roda 3.000 km no mês e faz 35 km/l: são cerca de 86 litros. Com o combustível a R$ 6,20, dá cerca de R$ 531.
Manutenção, pneus e relação, divididos pelo uso: R$ 300 no mês.
Seguro, IPVA, licenciamento, equipamento e DAS, divididos por 12 onde é anual: R$ 250 no mês.
Depreciação estimada: R$ 150 no mês.
Total: cerca de R$ 1.231, ou R$ 0,41 por km. Se um dia teve 150 km rodados, cerca de R$ 62 daquele dia foram custo da moto, não ganho. Os números são inventados para mostrar a conta: faça com os seus.
Separe o dinheiro da moto
Com o custo por km na mão, separe essa parte a cada dia de trabalho. Quando o pneu ou a relação vencerem, o dinheiro já está guardado.
Atenção
Cortar manutenção para aumentar o ganho do mês é a pior economia. Pneu careca, pastilha no fim e relação frouxa, com o tanto que você roda, cobram rápido. E pressa não é desculpa para passar do limite: a multa e o risco ficam com você.
Na prática, o que fazer agora
- Anote cada abastecimento com litros, valor e quilometragem por um mês inteiro.
- Guarde todas as notas de manutenção, pneus e relação, com a KM da moto no dia.
- Confira no manual se existe plano de manutenção para uso severo e siga.
- Calcule o seu custo por km e separe essa parte do faturamento todo dia.
- Se for se formalizar, confira a ocupação e o valor do DAS no Portal do Empreendedor.
- Refaça a conta a cada três meses: combustível, preço de peça e rotina mudam.